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sábado, 8 de janeiro de 2011

Do blog The Braganza Mothers

Não seria sequer introdutório dizer que Carlos Castro não fazia parte do meu círculo privado, mas já seria injusto não conceder que fazia parte do nosso imaginário coletivo. Melhor do que isso, o enorme suspiro de alívio que hoje passou pelo peito de muita da gente séria da nossa sociedade abjeta talvez seja o meu primeiro momento de conciliação com a figura, e vamos ficar por esse evento.
Castro Castro sabia demais, mas não podia falar senão de menos, porque há territórios onde abrir a boca é equivalente a condenação à morte, como com o assassino de Versace, e vamos abreviar: morreu em Nova Iorque, onde sempre afirmou quereria ter ficado eternamente, e aí ficará, e morto de morte olímpica, qualis vitae, finis ita.
As gentes que eram insinuadas pelas suas crónicas podem agora começar a dormir descansadas, ao lado das esposas e dos três filhos, pelo menos, até esta onda de choque passar, porque, atrás deste Carlos Castro, cem outros piores virão, para lhes atormentar as noites e os longos dias de insónia. É certo que os textos já não era ele que os escrevia, e vão ficar órfãos os lindos meninos da nossa sociedade, que, por todo o lado, lhe serviam de olhos e ouvidos de espreita, porque, apesar de omnisapiente, não era, nem podia ser, omnipresente. Espero que o Pedro Granger tenha soltado uma pequena lágrima, ao menos, porque muito lhe deve, e mais não digo.
Vamos agora ao canalha.O canalha tem a forma extraordinária de um produto típico da nossa época, os filhos de Sócrates e netos de Cavaco, enformados em jogos de computador, em concursos de onde, numa noite, parece suceder o milagre de se passar, da barraca do colchão, para a barraca da televisão. A verdade é que, como hoje assistimos, nada é assim, e, entre o anonimato e o pseudoestrelato há uma longa, longuíssima, carreira, que tem de ser percorrida de joelhos, de braguilha aberta, de calças pelos joelhos e de atos de vomitar logo a seguir, para quem ainda tenha o sentido da náusea.
A primeira náusea é que esta geração de plástico não sabe o que é a náusea, aliás, não sabe nada, exceto que pode valer o que valer o seu corpo numa bitola rasteira, e que pode forçar a bitola, quando o rasteiro não chegar, porque já não há lugar para as transparências, neste mundo.
É muito interessante mimetizar-se com uma permanente telenovela, como aquele antro de drogados, paneleiros e putas, e é só um exemplo, lançado pelos "Morangos com Açúcar", da TVI. Podíamos replicar aqui os nomes, o venal Figueiras, cuja mulher austríaca, se não sabe é porque é austríaca, e, para além de austríaca, estúpida; a Teresa Guilherme, conhecida pela tábua de passar a ferro dos ferros de engomar de 20 anos, e outros e outras tantas, que não interessa aqui referir, porque o alvo não são os antigos predadores, mas estes novos depredados, que, subitamente, se mostram ser uma classe ainda mais fria, e crua, de novos predadores e alvos de outro tipo de presa.
Para este Renato Seabra, e a nossa contemporaneidade está recheada de renatos seabras, cujo nome é legião, não há realidade, há mimetismos, e "sketchs" já apanhados numa qualquer série de televisão, num filme de série B americana, ou nos intermináveis ensaios de putaria desses repugnantes concursos de ascensão da insignificância, de que a nossa bateria de órgãos de intoxicação social se turvou.
É normal que, quando desfaz a cabeça do cronista, Renato Seabra tenha visto isso já nalgum lado, e, portanto, não se trate de um episódio da sua realidade, nem da Realidade, em si, mas de um qualquer momento de série, fugaz, que, algures, alguma câmara oculta, até deveria ter a obrigação de ter registado, porque estes momentos de improviso são muito melhores do que 100 horas de ensaio.
Quando agarra num caco de vidro de copo partido, para arrancar o "órgão nojento" que Carlos Castro tinha entre as pernas, já isso era matéria vista e revista em N vídeos de boxes da Zon e da Meo, naquelas horas tardias de ensinar aos adolescentes o método mais eficaz de esfaquear a avó.
Quando se cruza com a Portuguesa, e lhe diz que "hoje o Carlos já não sai do hotel", parece uma tirada daquela escola de canastrões, que nos destruiu a arte dramática, e que continua a ser apadrinhada por Nicolau Breyner, outro que tal, e que, como tal, não é vida, é ficção, e vai passar, quando o episódio encerrar.
Quando resiste à polícia, até é o herói invencível de uma série miserável, que, ainda de "smoking" e gravata virilmente desalinhada, mostra que o seu vertiginous way of life se sobrepõe às maçadas da Ordem e ao inoportuno Superego social, que, no fundo, se devia ajoelhar, perante a SUA profunda crise de caprichos, de avidez de dinheiro, e de excessos de alucinogéneos.
Talvez, naquela trágica noite, Carlos Castro lhe tenha subitamente dito que, afinal, não lhe podia apadrinhar o sonho de ir viver à custa dos Portugueses, nas prateleiras da RTP, cheias de renatos seabras de ambos os sexos, ou que o dinheiro de que precisava para a "linha da branca" tinha, por azar, ficado nalgum bolso esquecido, do apartamento das Amoreiras. Descompensado, o enredo usual destes filmes indica ao ser plastificado que "tem de matar", e ele mata, mas numa ficção, porque, como toda a gente sabe, depois de passado o genérico, todos os atores retomam as suas vidas anormais e secretas.
Esta geração pulula por aí. São sempre "heterossexuais", e só "procriam" com o mesmo sexo, por interesse. Vive imersa no narcisismo, e na apoteose da cultura do suburbano. Não tem valores, sentimentos, mas apenas objetivos, que não suportam qualquer tipo de contrariedades. Ao pé deles, quando passarem 30 anos, os berlusconis e os sarkozys, de hoje, parecerão gloriosos winstons churchills de um tempo passado.
É natural que muitos dos meus leitores e leitoras tenham alguns destes renatos, por desencantar, à espera dos seus 15 segundos de glória, nos cómodos das suas casas, a pagar a 50 anos. Talvez se encontrem surpreendidos; eu, por acaso... não, apenas chocado, porque as coisas se estão a desenvolver com maior rapidez do que se esperava, e vão provocar tremendas sequelas, como se verá, em toda uma enorme faixa social, de comportamentos sexuais não apadrinhados por Fátima, porque estas coisas desencadeiam sempre enormes vagas de fundo, de caça às bruxas.
Deve fazer parte do "pügrèsso", e daquele fantástico mundo degenerado, saído da boceta de pandora do Sr. Aníbal. A mim, a coisa preocupa-me, profundamente. De parabéns, realmente, suponho que só a SIC, a TVI e a RTP, e alguns outros arredores, menores, que espero que se sintam profundamente atingidos, porque é a eles que este texto se dirige.
http://braganzas.blogspot.com/2011/01/um-eclipse-chamado-carlos-castro.html

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