O citadino, o urbano, o burguês que sou, é um desterrado.
Não tem terra, quando muito um terreno, no meu caso a fração ideal de um terreno (um quarenta e oito avos, nesse prédio de 12 andares com 4 unidades por andar).
Pouca bagagem, no sentido em que as origens já não contam tanto.
Mais desterrado seria se tivesse que falar outra língua, mas não.
Desesperadamente eu falo em Português.
Mil línguas outras habitam minha cabeça, mas tem ínfima porciúncula perto da imersão na vastidão pessoal, geográfica e humana dessa língua, numa cidade monumental, dentro de um país continente. Pouco importa que aqui seja cosmopolita, que mil raças se caldeiem, que vivamos lado a lado com quase todos povos.
Brasileiro. Como posso me sentir desterrado?
Mesmo que eu andasse centenas de léguas, não sairia da "minha terra". E nunca chegaria na "minha terra", pois "não tenho terra".
Não tenho fazenda, nem sítio, nem chácara (mesmo se em Cajati eu pudesse plantar muitas coisas no vasto quintal onde sonhei lagos e criações de pequenos animais).
Valho portanto pelo que sei fazer, pelo que digo.
No fim, pelo que aqui escrevo. E disso não tenho paga. Pouco valho?
Publico o impublicável: intimidades.
Porém não vou nunca dizer tudo.
Seja por que há coisas que não sei, outras que não sei que sei, outras que escondo.
Impenetrável nessa couraça?
Inatingível nesse coração?
Vou ser "sempre" (vã palavra para um "mortal") esse ser sem nação, posto que busco o Universo, um pouco sem noção, já que me baseio mais nas dúvidas que nas certezas, mas querendo esquecer a inação e a vulgaridade.
Vivo em direção ao movimento, que é quase sinônimo de vida.
Almejo a sofisticação da liberdade, que requer todo o tempo um complexo concatenamento de atitudes próprias, auto centradas, em direção ao bem comum, ao bem estar coletivo.
Esse desterro é a vida moderna.
Eu, finalmente, cheguei ao meu tempo.
Não estou mais atrás, nem mais adiante.
Hoje e agora, aqui, nesse ponto!
Inarredavelmente dentro de mim.
Enquanto dure meu ser.
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