A infância pobre em Manuel Bandeira
Revelação viva e epifânica dessa quadra de felicidade mítica, em que, para além da passagem do tempo, "tudo lá parecia impregnado de eternidade" (6), aflora no poema "Evocação do Recife", que consta do quarto livro de poesia de Manuel Bandeira, Libertinagem. Outra obra-prima que Bandeira extraiu da mina dessa sua "Tróada" recifense é o poema "Profundamente" (também de Libertinagem), que a análise de Davi Arrigucci Jr. iluminou de diferentes ângulos, ressaltando porém a força simbólica com que o poeta retoma e atualiza um tópico tão antigo como o do ubi sunt?, relacionando-o não só com a sua história de vida, mas também com o processo de modernização da sociedade brasileira (7).
Sabemos, contudo, que a tematização da infância na obra de Manuel Bandeira não se deu apenas mediante o ato de recordar a própria experiência individual. Pois ainda antes da "Evocação do Recife" ou de "Profundamente", vieram poemas que se assentam na observação do mundo da infância, ou melhor dizendo, poemas em que Bandeira, mais ainda do que observar, compartilha liricamente dos acontecimentos tematizados. Expressivo momento dessa atitude encontra-se no livro O ritmo dissoluto, precisamente nos poemas "Meninos carvoeiros", "Na Rua do Sabão" e ainda "Balõezinhos", que fecha o livro com a imagem dos "menininhos pobres" - presentes na metonímia especular dos "olhos muito redondos" fixos nos "grandes balõezinhos muito redondos" - compondo em torno do vendedor loquaz, numa feira de arrabalde, "um círculo inamovível de desejo e espanto".
Do ponto de vista formal, podemos destacar em primeiro lugar, como traço comum a esses três poemas, o predomínio do verso-livre, que na trajetória poética de Bandeira pode ser considerado índice de seu acercamento ao prosaico, à vida cotidiana, aprofundando a ruptura com o início parnasiano-simbolista. Os poemas constam, como já ficou dito, de O ritmo dissoluto, o primeiro dos quatro livros (incluindo-se a prosa das Crônicas da Província do Brasil) que escreve na rua do Curvelo, para onde o poeta - já marcado pela pobreza, pela solidão e pela tuberculose - muda-se em 1920. Foi publicado o livro em 1924 e, conforme reconstitui Bandeira no Itinerário de Pasárgada, teve recepção controversa por parte dos admiradores de sua poesia, como se exemplifica, por um lado, com Adolfo Casais Monteiro, para quem "muitas são as poesias sem ritmo de espécie alguma; mais do que ritmo dissoluto portanto..."; e, por outro lado, Octávio de Faria, que vislumbra aí o momento "em que o poeta vencendo as últimas barreiras da sujeição a regras que o tolhem demais, atinge a sua forma mais agradável." O próprio Bandeira, ainda segundo a reconstituição de seu Itinerário, considera O ritmo dissoluto um "livro de transição", e isto tanto para a "afinação poética" conquistada no âmbito do verso-livre e dos versos rimados e metrificados, como também, quanto à expressão de sentimentos e idéias, para a "completa liberdade de movimentos, liberdade de que cheguei a abusar no livro seguinte, a que por isso mesmo chamei Libertinagem" (8).
Se O ritmo dissoluto representa assim o primeiro fruto da experiência de Bandeira na rua do Curvelo, então é legítimo supor que essa influência "mundana", oriunda da rua, tenha contribuído igualmente para a constituição da temática desdobrada nos poemas "Na Rua do Sabão", "Meninos carvoeiros" e "Balõezinhos". O próprio Itinerário de Pasárgada fornece indicações nesse sentido, quando reproduz por exemplo a seguinte observação de Ribeiro Couto, feita no discurso com que saudou, em 1940, o ingresso do amigo na Academia Brasileira de Letras: "Das vossas amplas janelas, tanto as do lado da rua em que brincavam crianças, como as do lado da ribanceira, com cantigas de mulheres pobres lavando roupa nas tinas de barrela, começastes a ver muitas coisas. O morro do Curvelo, em seu devido tempo, trouxe-vos aquilo que a leitura dos grandes livros da humanidade não pode substituir: a rua."
E, caracterizando em seguida a vista que tinha, de sua nova casa, sobre o ambiente do Curvelo, as palavras de Bandeira elucidam de maneira ainda mais particularizada o tema da infância pobre, pois enquanto pelo "fundo da casa" podia observar a "pobreza mais dura e mais valente", o lado da frente traçava a "zona de convívio com a garotada sem lei nem rei que infestava as minhas janelas, quebrando-lhes às vezes as vidraças, mas restituindo-me de certo modo o meu clima de meninice na Rua da União em Pernambuco." E na seqüência, como síntese dessas vivências e observações: "Não sei se exagero dizendo que foi na Rua do Curvelo que reaprendi os caminhos da infância" (9).
De dois testemunhos dessa aprendizagem do poeta adulto, "Meninos carvoeiros" e "Na Rua do Sabão", é possível acompanhar também um pouco de sua gênese mediante cartas trocadas com Mário de Andrade, já que as de Bandeira foram acompanhadas, por duas vezes, dos manuscritos dos poemas, com variantes bastante interessantes em relação à versão definitiva. Em carta escrita provavelmente no dia 22 de maio de 1923, Mário pede permissão - e já em seguida responde pelo amigo - para publicar "Na Rua do Sabão" no último número da revista Klaxon (10), e num post scriptum à carta de 7 de junho do mesmo ano lê-se a seguinte observação: "Esqueci de dizer do teu poema 'Os meninos carvoeiros' que só a 'Rua do Sabão' o ultrapassa. é uma delícia."
A próxima carta que Mário dirige ao amigo, datada de 5 de agosto, volta a referir-se a esses dois poemas, mas agora como que para "repreender" o sentimento merencório e autocomiserativo que Bandeira colocara numa observação relativa ao seu relacionamento com a tuberculose:
"Mas erras enormemente, Manuel, quando dizes como na tua última carta 'Hoje sou ironicamente, sarcasticamente tísico'. Não o és mais. Ao menos 'sarcasticamente'. Nem o foste nunca, propriamente. Eu sei. Ironicamente, inda vá. Mas quem escreve 'Os meninos carvoeiros' e a 'Rua do Sabão' não é mais sarcasticamente tísico, é amorosamente tísico. E o 'Bonheur lyrique'? Eis aí, meu amigo, onde estamos hoje, tu e eu" (11).
Já uma leitura inicial poderia fixar, como traço comum mais geral aos dois poemas, a "temática" da infância pobre. Mas, num segundo passo, também já seria necessário atentar às diferenças no tratamento lírico que o poeta dispensa à sua observação (não importa se imaginária ou real) dos pequenos trabalhadores de carvoaria e dos acontecimentos protagonizados pelas crianças pobres da rua do Sabão. Vale observar aqui, em primeiro lugar, que o gesto "amorosamente tísico" a que se refere Mário de Andrade evidencia-se com mais intensidade no poema que também considera superior. Entretanto, isto não deve significar que o poeta tenha colocado menos "amorosidade" na observação do trabalho dos carvoeiros, essas "crianças raquíticas" que - a despeito daquilo que o poema silencia - parecem integradas na "madrugada ingênua" e como que fundidas com os "burrinhos descadeirados" que vão tocando: "adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!" Pois tal como nos versos que acompanham a serena ascensão do balãozinho na rua do Sabão, também aqui a empatia do poeta com os seres de sua observação plasma-se na qualidade dos versos livres que se amoldam ao ritmo da marcha dos meninos, mais composta na ida, mais dissoluta na volta:
"Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados!"
Seria tarefa de uma análise mais detalhada revelar aqui em que medida a estrutura rítmica e sonora desses versos "prosaicos", também a precisão vocabular que surpreende por um refinamento que jamais resvala no pedantismo, expressam, já na imanência da linguagem, a profunda empatia do poeta com os meninos carvoeiros, que refulgem ao final na esvoaçante imagem dos "espantalhos desamparados". Tudo isso torna difícil, numa comparação entre os dois poemas, dar a primazia a um ou a outro. Mas talvez o juízo de Mário deva-se sobretudo à estrutura formal mais elaborada que se verifica no poema "Na Rua do Sabão"; além disso é este que evidencia de maneira mais explícita, como se verá a seguir, o poeta que seria, acima de tudo, "amorosamente tísico".
Na Rua do Sabão
Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquêle balãozinho de papel!
Quem fêz foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de sêda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de côr.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Sùbitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto.
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