Sobre Tiririca (pequena crônica da visão “utilitária” humana)
09/10/2010
Em referência ao artigo de Walter Miranda, tenho a dizer que este meu amigo sempre tem uma excelente e lúcida visão acerca do que ocorre em nossa sociedade. Tiririca é um palhaço que possui até talento, analfabeto (ao menos funcional) e que serviu muito bem aos interesses de uma determinada parcela da elite política. Não sei se por inocência ou outra razão que desconheçamos, ele se tornou candidato para, qual certeiro puxador de votos, eleger uma parcela considerável de deputados letrados e bem articulados na cena política. Isto já era previsível para quem conhece a legislação eleitoral. Depois que Tiririca não se torna mais "necessário" à elite (é um deputado que pouco ou nada influenciará seus colegas), poderá ser descartado como um dejeto qualquer. Já está sendo, aliás, pelos Tribunais Eleitorais e por parcela da elite que não o quer ver na Câmara dos Deputados – mas não o quer não por ser ele um “abestado”, e sim para colocar, em seu lugar, outros políticos menos votados, letrados, adeptos do “sistema”. Esta é a maneira pela qual, aliás, a funcionalidade do sistema capitalista determina também nossas relações humanas. Somos "úteis" ou "inúteis", mas nunca humanos. Meu tempo tem sido muito corrido, estou sendo atacado por moléstias diversas, mas, ora ou outra, tenho conseguido ler um livro de Jean Baudrillard, intitulado “A sociedade de consumo”. Aliás, meu tempo anda corrido graças a estas vicissitudes do sistema capitalista, que nos obriga à maximização do trabalho em troca de salário e, por conseqüência, à redução drástica de nossa vida destinada à satisfação existencial propriamente dita. Ofereço-lhes, pois, um pequeno opúsculo da obra no parágrafo abaixo.
“À nossa volta, existe hoje uma espécie de evidência fantástica do consumo e da abundância, criada pela multiplicação dos objetos, dos serviços, dos bens materiais, originando como que uma categoria de mutação fundamental na ecologia da espécie humana. Para falar com propriedade, os homens da opulência não se encontram rodeados, como sempre acontecera, por outros homens, mas mais por objetos. O conjunto das suas relações sociais já não é tanto o laço com seus semelhantes quanto, no plano estatístico segundo uma curva ascendente, a recepção e a manipulação de bens e de mensagens, desde a organização doméstica muito complexa e com suas dezenas de escravos técnicos até ao ‘mobiliário urbano’ e toda a maquinaria material das comunicações e das atividades profissionais, até ao espetáculo permanente da celebração do objeto na publicidade e as centenas de mensagens diárias emitidas pelos “classe media”; desde o formigueiro mais reduzido de quinquilharias vagamente obsessivas até aos psicodramas simbólicos alimentados pelos objetos noturnos, que vêm invadir-nos nos próprios sonhos. Os conceitos de ‘ambiente’ e de ‘ambiência’ só se divulgaram a partir do momento em que, no fundo, começamos a viver menos na proximidade dos outros homens, na sua presença e no seu discurso; e mais sob o olhar mudo de objetos obedientes e alucinantes que nos repetem sempre o mesmo discurso – isto é, o do nosso poder medusado, da nossa abundância virtual, da ausência mútua de uns aos outros. Como a criança-lobo se torna lobo à força de com eles viver, também nós, pouco a pouco, nos tornamos funcionais. Vivemos o tempo dos objetos: quero dizer que existimos segundo o seu ritmo e em conformidade com a sua sucessão permanente. Atualmente, somos nós que os vemos nascer, produzir-se e morrer, ao passo que em todas as civilizações anteriores eram os objetos, instrumentos ou monumentos perenes, que sobreviviam às gerações humanas”. Gostei muito quando Baudrillard falou de nosso "poder medusado". Não sabemos mais ser humanos: somos objetos, e só vemos "utilidade" em outro homem caso ele consiga repetir exatamente nosso discurso, qual um objeto à nossa disposição. Ninguém dizia querer Tiririca, mas dele se valeram para eleger diversos deputados. Foi “útil” dissimuladamente. Mas Tiririca não serve ao sistema, pois sequer capacidade para reproduzir o discurso ele possui. Analfabeto pode votar, mas não receber votos, pois ao menos os alfabetizados conseguem ler, numa tribuna, aquilo que lhe mandam dizer. O analfabeto só conseguirá exprimir sua interioridade, seu pensamento e experiência de mundo deturpados – aqui e acolá – pelos meios de comunicação e pelos "formadores" que lhe são postos no caminho, como Revista Veja, Folha de São Paulo “et caterva”. Não à toa Alckmin foi eleito Governador de São Paulo uma vez mais: o sistema educacional que ele e Covas começaram a patrocinar em São Paulo, e que atingiu duas gerações inteiras (inclusive a minha), criou uma enorme massa de manobra. Exemplifico com a fala abaixo. Não vou adentrar em questões partidárias, mas Plínio de Arruda Sampaio não obter sequer 1% dos votos válidos somente pode significar analfabetismo político, esse mesmo que Bertolt Brecht falava. E quando falo “analfabetismo político” não me refiro apenas aos iletrados, mas também àqueles que se deixam manipular pela velha mídia oligárquica, conservadora e reacionária. Digo com a "autoridade" de quem não votou em Plínio, mas lhe reconhece méritos mais que suficientes para obter uma votação imensamente superior à recebida. Plínio, além de ser um grande intelectual, é um homem de ação, que coordena e participa de perto de legítimos movimentos sociais. Ora, um homem que, aos 80 anos de idade (e isso não é para qualquer um), conseguiu cativar uma enorme massa de jovens, que levou discursos verdadeiramente progressistas à pauta do debate nacional, não merecia a votação que teve. Marina Silva, com todo o meu imenso respeito, não trouxe nem mesmo um/vinte avos da contribuição que Plínio trouxe à pauta dos debates das políticas públicas nacionais, e ainda assim capitaneou cerca de 20% dos votos do Brasil. Agora Dilma e Serra se deblateram para tentar incorporar aos seus programas alguns "discursos" de Marina, pouco se importando com os de Plínio, como limitação das propriedades, imposto sobre grandes fortunas, redução da jornada de trabalho, etc. Estes assuntos sim eu, como brasileiro, gostaria de ver na agenda dos nossos presidenciáveis. Por isto, repito Baudrillard: "como a criança-lobo se torna lobo à força de com eles viver", tornamo-nos também um pouco lobos. Tiririca é usado para fins eleitoreiros, como palhaço que de fato é, e em seguida descartado como inútil. Mas será que a um homem cabe, mesmo, o adjetivo da inutilidade ou da utilidade? Penso que tais adjetivações concirnam às coisas, não aos seres. Plínio Sampaio, por seu intrínseco bom-humor (e candidato precisa ser sisudo pra merecer respeito?), é visto como o "candidato engraçado", cujas propostas não devem ser levadas a sério por serem "inviáveis". E então pergunto: por que razão são inviáveis? Assim, aos poucos, construímos nossos ambientes, reduzindo-nos cada vez mais ao espelho que enxergamos em cada um de nossos homens-objetos-companheiros. Este nosso poder medusado, que quer enxergar a todos – inclusive aos candidatos – como objetos me preocupa bastante. As eleições de 2.010 colocaram na pauta temas dignos da década de 1.940, como a ressurreição do “aborto”. Agora vemos Serra e Dilma – principalmente a última – vendo seu discurso voltado à desconstrução desta imagem, embora ela mesma, Dilma, jamais tenha se posicionado favoravelmente ao aborto. Serra, por sua vez, publicamente assume a defesa do adultério, quando propõe que é possível ter amantes, desde que seja algo discreto, mas a isso ninguém dá importância (talvez pelo fato de a maioria ser adúltera). No entanto, confesso que uma possível defesa pública do aborto, do adultério, do casamento homossexual, etc., não mudaria meu voto em nada. Sou católico desde que nasci, tenho minhas convicções de mundo, mas nunca as imporia como políticas públicas, porque sei que no Brasil existem inúmeras denominações religiosas, além de ateus e agnósticos, e todos merecem igual respeito. Não vejo com maus olhos uma legislação que permita o aborto, principalmente porque ela não obriga ninguém a fazê-lo. Meu filho nascerá em menos de dois meses e nunca pensei, nem mesmo remotamente, na possibilidade de sugerir um aborto, ainda que houvesse legislação permitindo tal feito. No entanto, quem não tiver esta concepção de vida da qual eu e a maioria do povo brasileiro partilhamos, que o faça. Jean-Paul Sartre e sua companheira Simone de Beauvoir estavam engajados nesta campanha desde a década de 1.950 e agora, 60 anos depois, ela é tida como fator para escolha ou não de um candidato! Isto revela a ignorância política do povo brasileiro, ao misturar questões de foro íntimo com políticas públicas. O mesmo se diga quanto ao casamento gay. Plínio de Arruda Sampaio, como cristão praticante que é, teve a coragem de afirmar que não se pode impor a este ou àquele credo religioso tal matrimônio. De fato, trata-se de questão de crença religiosa, e tais convicções estão protegidas no plano constitucional. No entanto, no plano civil, Plínio fez questão de ressaltar – como eu mesmo já o fiz, neste jornal – que é a favor não da união civil, mas do casamento entre homossexuais. Porque casamento significa “acasalar-se”, ou seja, tornar duas pessoas um casal no sentido profundo que isso implica. A afirmação choca, ainda mais vinda de um cristão praticante como Plínio (ou, modestamente, como eu e muitos outros). Mas a regra é muito lógica: nenhum homem será obrigado a se “acasalar” com outro homem, nem uma mulher com outra. No entanto, se o desejar, por sua condição homossexual, que o faça! O Estado existe para garantir direitos aos seus cidadãos, e não para retirá-los. O mesmo se diga, “mutatis mutandi”, ao aborto: Sartre e Beauvoir defendiam tal prerrogativa como inerente ao casal para o planejamento de sua vida, ainda que em detrimento da vida do feto, porque o casal já estava estabelecido socialmente. O feto sequer existia. Não por outro motivo o Código Penal, em seu artigo 128, I, permite desde 1.940 o aborto se este colocar em risco a vida da mãe. Aí se questiona: por que a Lei prefere a vida da mãe à do filho? As Igrejas são contrárias a esta norma há 70 anos, desde quando foi promulgada. Ora, prefere-se a vida da mãe à do feto justamente porque a mãe já possui relações sociais estabelecidas, ao contrário do embrião. Entretanto, se esta mãe quiser valer-se dos preceitos ensinados por sua denominação religiosa, e sacrificar sua vida em prol do filho (o que não é incomum), há algum impedimento legal para isto? Nenhum. Por estas razões, e inúmeras outras, não entendo o fundamentalismo às avessas que ocorre na sociedade brasileira. Acho que se eu for defender em praça pública minha tese de doutoramento, que estuda a regulamentação profissional da prostituição para quem queira dela valer-se como meio de subsistência, serei linchado. Ainda bem que a defesa será no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Porque as pessoas não entendem como eu, Renato, pessoalmente tenha uma posição contrária ao aborto e jamais me prostituí ou me prostituiria mas, mesmo assim, defendo ampla liberdade a estas e outras questões como políticas públicas. A sociedade não sabe distinguir o público do privado, o Estado da crença religiosa, etc. É o velho espírito de cordialidade brasileira de que fala Sérgio Buarque de Hollanda: não cordialidade como “gentileza”, mas como algo que vem do “cors”, ou seja, do coração. Age-se com emoção, e não com racionalidade; por isto o público e o privado se confundem e misturam. Meu professor mais querido, Fábio Konder Comparato (o advogado que atuou na acusação do impeachment de Collor), contou-me uma história muito interessante. Em meados de 1.959, quando ainda era estudante de Direito, defendeu uma tese a favor de pessoas afrodescendentes (era sobre criminalização do racismo). Um colega se levantou e perguntou: “se você gosta tanto assim dos negros, por que sua namorada é branca? Namore uma negra!”. Passados 50 anos, Comparato hoje ri desta esdrúxula afirmação. Já eu começo a me preocupar: a sociedade tem mostrado cada vez mais sua faceta reacionária. Como eu me afirmo sempre favorável aos direitos das pessoas afrodescendentes, homossexuais, soropositivas, assim como a quem queira praticar o aborto ou prostituir-se, nem quero imaginar o que falarão a meu respeito! Talvez eu seja obrigado a “casar-me” com um homem negro, portador de HIV, prostituir-me e, se engravidar alguém, praticar o aborto. E pior: ainda sou cristão! É possível que eu seja excomungado. Mas, se o for por estas razões, será uma honra, e prometo de público, qual fez um famoso filósofo no início do século: prometo publicamente, aqui, dar um tiro no Papa se ele o fizer. Como este filósofo, cujo nome honestamente não me recordo, direi a todos após a excomunhão: “amanhã, às 15:00hs, darei um tiro no Papa”. Vários repórteres se reuniram em frente à casa do filósofo que, pontualmente, com arma em punho, perguntou: “para que lado fica o Vaticano?”. Um repórter respondeu: “à sua esquerda”. O filósofo, então, atirou mirando o Vaticano, que distava mais de 1.000km do local. Logo, outro repórter falou: “com este tiro, o senhor jamais matará ou atingirá o Papa”. Diante disto, o filósofo respondeu: “assim como meu tiro jamais acertará o Papa, sua excomunhão jamais abalará, em mim, a fé que tenho em Jesus Cristo e na Igreja Católica”. Crença religiosa, seja em qual denominação for, não se abala nem mesmo com excomunhão. Visão sobre políticas públicas, idem. O brasileiro precisa aprender a ser mais racional, a querer “medusar” menos aos outros conforme suas convicções pessoais, e respeitar políticas contrárias às suas crenças individuais. Do contrário, permaneceremos objetos, e não homens.
(*) Renato de Almeida Muçouçah, 28, Mestre e Doutorando em Direito pela USP, Professor da UNESP/Franca
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