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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Shabat quatrocentão, sabá amazônico, prosopopéia à moda de Saul Bashevis Singer

"Em meio desta obra alpestre e dura,
Uma boca rompeu o mar inchado
Que na língua dos bárbaros escura,
Paranambuco de todas é chamada:

De Pará, no que é mar; Puca, rotura,
Feita com a fúria desse Mar Salgado,
Que sem derivar, cometer mingoa,
Cova do Mar se chama em nossa lingoa.
Prosopopéia" (Bento Pinto Teixeira)

R. fechou o escritório de engenharia minero-química e veio vindo correndo para casa enquanto o comércio do "shtetzel" do bom retiro do Itaim Bibi se fechava. Azáfama de retornar à casa para a primeira estrela da sexta feira. Vinha carregado, gordo e um pouco suado.
O inverno tropical brasileiro lembrava-lhe um verão de Birobidjan no Oblast Judeu, quase nos confins da velha Rússia, na divisa chinesa... Ou as primaveras de Toledo, Sefarad Al Andalus, ladino granadino e galego, e do Marrocos, Magribia haktia, todas terras onde estivera para conhecer "mais sobre os antepassados" aquele ingênuo mestiço (de ashkenazim com sefardim e sabe-se lá mais que sangues autóctones, africanos ou europeus haviam se caldeado e nele fundido). Mais "recentemente" ele se sentia velho já de trezentos a quinhentos anos naqueles cafundós da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Sul americano. Pois se vocês não sabem, mas D's sim, em São Paulo em 1550 já se fugia do Santo Ofício sendo cripto judeu e a primeira sinagoga americana foi a Kahal Zur Israel na Recife de Nassau, consagrada em 1636.
Seus tris e tataravós, indo "bandeirantes" ou "mascates" e depois retornando "doutores", tinham chegado, ou voltado, a São Paulo já há séculos.
Agora ele meio que corria, ansioso como só ele. As longas barbas e costeletas da cabeça raspada se enroscando com os tfilim, com as abas de seu paletó preto, as sacolas de compras e amarfanhadas com o jornal íidiche que tanto ele se esforçava para achar e decifrar. O kipá pendendo sobre a perna dos óculos de lentes grossas de míope astigmata profundo aumentavam grotesca figura de judeu ortodoxo extemporâneo na moderna metrópole sul americana.
No apartamento confortável se recompôs, ainda fedido acendeu todas velas da menorá, abriu a Torá e começou a lê-la. Também foi ao Guia dos Perplexos de ben Maimon. Esperava a mulher médica chegar do consultório. Os filhos... o menorzinho (grande e gordo na sua pré adolescência) ainda na "barra da saia" apesar de já ter passado recentemente seu Bar Mitzvah na Hebraica, fazendo o pão fermentado antes de ter que comer as matzot. O mais velho ("quase "maior"" se dizia ao descumprir as ordens do conformado pai), mais "desgarrado", tinha saído (sem se preocupar com os costumes "de velho", de "gueto" do seu pai "trouxa"), correndo que estava atrás de disvirginar uma "goi" qualquer que ele podia achar no "Baixo Augusta", onde ele ia se enfiar em "inferninhos sujos", segundo os milhares de preconceitos de R.
A mulher entrou pela porta e ele esqueceu tudo que maquinava em sua cabeçorra nariguda. O pão "de fermento" foi comido com manteiga e vinho kosher.
Se banhou como um rabino e pôs o melhor terno.
A primeira estrela apareceu, ele fez seu Sêder, bebeu mais, todo pio, rezou muito e se alegrou, pôs pijama, fez leituras rituais, esperou o filhão voltar da balada, acolheu-o, e se preparou para dormir. A casa sem "nada elétrico" funcionando, para "não prender lume", como dizia, até o fogão "interditado", sem tv, só o candelabro...até que soprou as velas e foi se deitar ao lado de Katiushika.
"No dia em que todos fizerem seu shabat corretamente, como eu," pensava R. envaidecido, o que também é pecado, "o Messias estará mais próximo!".

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