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"Concreto"

Pedra, barro, massa     Mão, calo, amassa! Levanta parede  No ar  D a hora Que se levante! Mora dentro     F ora   Vi...

sábado, 9 de novembro de 2013

Começo a entender uma doença minha: talvez tenha cura!

Tem a ver com um certo tipo de programa da televisão...
Tem vários nomes e diretores, seriezinhas televisivas do tipo "Mil e uma formas estranhas de morrer".
Ao mesmo tempo que tratam superficialmente com "respeito", no fundo é um circo de horrores para entreter os vivos com as bizarrices das formas de apresentação da "iniludível"...
Foi por aí que saiu aquele post maldito sobre o tio e a risada nervosa sobre o primo do Mau...

Dai-me a reconciliação, Mané!

Consoada (Manuel Bandeira)

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Dia dos mortos e dias dos vivos (Contardo Calligaris)

Mesmo estando em Veneza, não passei pelo cemitério de San Michele no dia dos mortos.
Se eu fosse até lá no dia 2, teria visitado um amigo dos meus pais, que mal se lembraria de mim, e alguns ilustres: Stravinsky, Joseph Brodsky, que é um poeta que me toca e escreveu um livro lindo sobre Veneza ("Marca d'Água", Cosac Naify), e Franco Basaglia, que desencadeou o movimento antipsiquiátrico, no hospital de Gorizia.
É provável que as visitas aos cemitérios se tornem cada vez mais raras. Além de um túmulo concreto, muitos já erigem monumentos virtuais para seus entes queridos, e visitar os mortos, no futuro, talvez signifique passear por um lugar virtual: rever fotos e textos, lembrar-se e deixar um pensamento (há sites para isso, cemitérios virtuais --peoplememory.com, por exemplo).
Na Itália, há também cemitérios reais em que, graças a câmeras filmando ao vivo, é possível visitar qualquer tumba virtualmente, sem sequer sair de casa (a coisa começou, aliás, com os cemitérios de lugares com forte índice de emigração, de modo que netos e bisnetos do outro lado do mar pudessem visitar "i nonni").
Mas a razão pela qual não visitei San Michele é outra. Especialmente em Veneza, para mim, os mortos não estão separados dos vivos. Claro, Napoleão chegou até aqui e instituiu os cemitérios (entre eles San Michele), proibindo que os mortos fossem sepultados perto dos vivos.
Mas meu pai pensava diferente de Napoleão; para ele, a presença dos mortos não tinha por que ser pavorosa ou insalubre --ao contrário, ela só enriquecia nossa vida.
Meu pai queria que eu me interessasse pelas pedras da cidade, por sua arte e por sua história. O jeito que ele encontrou foi me seduzir com histórias (algumas verdadeiras, outras --suspeito-- inventadas).
Em Veneza, há mais de uma rua dos assassinos, mais de um "malcantón" (canto ruim), mais de uma ponte do diabo ou dos esquartejados. De todos esses lugares, uma lenda explica o nome. Mesma coisa para cada pedra estranha no meio da calçada, cada busto de anjo ou de diabo num muro. Para quem cresceu ouvindo essas histórias, o passado é uma outra dimensão, quase presente, visível, e a cidade é povoada pelas sombras dos que foram. Por exemplo, visitei a parte da Bienal de Arte que é apresentada no antigo Arsenal. Artistas contemporâneos mostram suas obras, inclusive ao ar livre, nas docas onde eram construídos os navios da República. Reis e poderosos, passando por Veneza, sempre eram convidados a festas no Arsenal, que duravam uma tarde, para eles constatarem que, numa tarde, Veneza conseguia construir um navio. Pois bem, no Arsenal, misturo-me à fauna variada da Bienal, mas nunca deixo de enxergar, no fundo, o trabalho dos obreiros que terminavam uma galera num dia só. Uma vez, passeando pelas Fondamenta delle Zattere num fim de tarde, meu pai me mostrou o enorme edifício do moinho Stucky, abandonado. Ele apontou luzes trêmulas nas janelas escuras. Eu não enxerguei nada, mas aprendi que aquelas eram as chamas que assinalavam o lugar onde jazia a beata Giuliana de Collalto, esquecida na vala comum das freiras de seu mosteiro, no fim do século 13. Nada demais, só que o mosteiro de Giuliana tinha sido demolido e, no seu lugar, surgia, justamente, o moinho Stucky, uma gigantesca oficina neogótica. Ora, em 1910, o próprio Stucky foi assassinado, e, em 2003, o moinho, antes de se tornar mega-hotel, sofreu um grave incêndio. Talvez tenha sido Giuliana de Collalto; talvez e mais provável, tenha sido a sombra de John Ruskin voltando para defender o gótico de sua Veneza amada contra o horror neogótico do Stucky. Seja como for, no dia dos mortos, não precisamos visitar os cemitérios porque nossos mortos já estão entre nós (ou dentro de nós). E não é necessário ter medo: eles, em tese, estão do nosso lado e contra nossos inimigos. Por quê? A melhor resposta é a de Cinqué, na versão que Steven Spielberg filmou da história do navio "Amistad". No filme, Cinqué explica a John Quincy Adams (seu advogado) que ele chamará seus antepassados para que o ajudem na hora do processo no qual será decidido se ele ganhará sua liberdade de volta ou continuará escravo. Cinqué afirma com clareza e convicção que os antepassados não poderão deixar de vir para ajudá-lo, por uma razão simples: ele, Cinqué, é a única razão de eles terem existido.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Do portal eljadida.com

«Certes nous sommes à Allah, et c'est à Lui que nous retournerons. » (Sourate Albaqara, Le Coran). La disparition de nos parents, proches et amis les plus chers doit nous alerter et nous inciter à faire davantage de bien en aimant autrui sans attendre la contrepartie. Puisse Dieu accorder Sa Sainte Miséricorde à tous les disparus parmi nos parents et amis. - See more at: http://www.eljadida.com/actualite_news_el_jadida/la-mort-ne-depend-pas-de-l-age-a5219.html#sthash.WnPG7vZx.dpuf
"É certo que viemos de Deus, e é a Ele que retornaremos"

O desaparecimento de nossos parentes, próximos e amigos mais caros deve nos alertar e nos incitar sobre as vantagens de bem amar os outros sem esperar contrapartidas. Possa Deus consentir sua santa misericórdia a todos desaparecidos e entre eles nossos parentes e amigos.

Diga-me com quem andas...

domingo, 3 de novembro de 2013

Desocupações novembrinas primodominicais

Escutar Wilson Simonal e Tom e Chico.
Ver o sol brilhar na varanda da laje.
Ter esperanças enquanto cantar e sorrir.
Procurar iguais e viver bem com os diferentes.
Limpar o jardim, o quintal e dentro de casa.
Desocupar não é inútil.
Buscar a essência de viver e se apaixonar pela vida.
Ser implica aceitar a morte.
Todo o resto (trabalhar prá comer) são vicissitudes.
Fruir é o viver em si.
Sem passado e sem futuro.
Só o aquiagora.

sábado, 2 de novembro de 2013

Desocupações novembrinas neonatas

Sair cedo de casa para passar o dia de Finados com a tia recém "orfã de filha" e a mãe em Jundiaí.
Pegar a estrada no sol, não ter hora nem pressa e mesmo assim estar correndo, por prazer à velocidade.
Fazer canapés, comê-los com vinho e cerveja.
Receber o irmão e família prá se juntar ao rega bofe e fruição.
Ir num restaurante tradicional do centro daquela cidade e pedir um esisbein à pururuca, completo, com duas salchicas, branca e vermelha, enormes, kassler, chucrute, batatas, kartoffel, cerveja de trigo, arroz ou fetuccini ao pesto?
Café forte, appfelstrudel, voltar na estrada, deixar a mulher que começa a menopausar em casa, sair a pé para a Augusta, repescagem da Mostra no Cinecesc, "Bertolucci por Bertolucci", voltar a pé pelo comércio já natalino e ir enchendo uma sacolinha com brincos prá mulher, camisetas pros meninos, um livro e um cedê prá mim, pegar um táxi, descer a 9, entrar em casa, fritar batata com queijo, tomar limonada de limão siciliano feita na horinha, doce e gelada "comme il faut", pensar em todos e desejar uma boa noite, sonhar os dois filhos universitários no ano que vem, saber que me restam 3 ou 4 décadas no máximo (se não me pegarem o susto, a bala ou o vício), escrever essas mal traçadas, desejar que o mundo veja o que tem que ser visto e sinta o que precisa ser sentido, saber que sou pó e a ele em breve, ou nem tanto, a ele voltarei.
Ser homem de meia idade nessa aurora do século XXI, vivere, vivir, to live and let live, curtir até o último dia, a última hora, até o último minuto, grato, sem canseira dessa existência, tentando mostrar que o Paraíso é isso mesmo, não há céu nem inferno, só a Terra, essa que agora vejo em partes, como um todo...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Fernanda

Como tinha ficado de corrigir a declaração de imposto de renda, pedi o dia ao chefe.
Saí cedo de casa, de moto, com medo da chuva e do trânsito sempre complicado, ainda mais ir lá na Vila Alpina, a Zona Leste é quase uma cidade desconhecida e um pouco intimidadora para mim.
Cheguei lá quase dez da manhã.
Na minha frente na fila, um par de nipo-brasileiros ladeados por várias mulheres (achei que eram dois "primos" e três "tias") foram informados para ligar daqui há 15 dias, os fornos deram problemas, dos 3 só 1 funcionou durante uns dias, as cremações "de ossos" atrasaram...
Quando o funcionário me deu atenção, perguntei a ele se o meu caso era semelhante (já pressentindo a perda da viagem...). Mas não! Tuas cinzas estavam lá!
No final eram mais pesadas e em maior quantidade que o que eu tinha previsto. Não comprei urna nem nada. Vieste nas minhas costas, na mochilinha que levei prá isso, num saco de plástico identificado, numa sacola de papel branco que o crematório dá, com seu certificado de cremação (minha fama é talvez ruim, é melhor eu ter todos essas identificações do pacote para não acharem que burlei a família e peguei um saco com um pó semelhante qualquer para enganá-los).
Quando falei com a tua mãe, ela já imaginava que era isso...que eu tinha cumprido mais essa missão que abracei não com alegria, mas com abnegação.
Mas o principal, que já sabes, acho, pois se converso contigo você deve estar naquele umbral encantando, vendo tudo, tudo sabendo...
Vão dar teu nome para uma UBS de Jundiaí, num daqueles bairros bem pobres, onde lutaste para melhorar o atendimento público de saúde aos mais necessitados.
Boquirrotos falam que "nada do governo presta". Eles deviam dobrar a língua antes de falarem de mulheres como tu, minha irmã, nossas primas e tias, meu pai, etc. Funcionários públicos, mais que exemplares, indispensáveis! Valeu prima! Vamos "te espalhar", esse nadinha que deixaste no mundo material, pelos caminhos das catraias de Vicente de Carvalho, da Praia do Góis e da Pouca Farinha...Tuas idéias perdurarão!