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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

AO MESMO LETRADO MORDENDO, E ABOCCANHANDO AS LETRAS, Crônica de Gregório de Mattos Guerra, sobre o viver bahiano seiscentista

1 Estava o Doutor Gilvaz
à margem da livraria,
cuidando, no que faria,
e estudando, o que não faz:
quando uma parte sagaz
lhe entrou com certas questões,
e ao pagar-lhe das razões
lhe transformou no bofete
a panela em capacete,
e em câmara os camarões.

2 Uns camarões em panela
era o mimo, e o presente,
que aquela parte insolente
levava ao Doutor cabrela:
ele arremessou-se a ela,
mas mostrou-lhe o seu pecado,
que do ofício de advogado,
em que estriba o seu sustento,
era aquele um provimento
pela Câmara passado.


3 Porque da Câmara era,
diz a Parte, que o levara,
que reverente o beijara,
e na cabeça o pusera:
que a panela se escorrera,
e da cara mascarada
saíra tal enxurrada,
que o Doutor nesta ocasião
não cegou de privação,
ficou cego de privada.

4 Deste sucesso infeliz
logo, e a todo o correr
teve notícia a Mulher
por avisos do nariz:
e posto que ver não quis
tal cara com tal salmoura,
viu na cabeleira cara,
que a afeia, e a desdoura,
que adequada a tornara
mais suja, porém mais loura.

5 Por evitar maior perda,
água água pediu logo,
senão para tanto fogo,
água para tanta merda:
lavou-lhe cabelo, e cerda,
lavou-lhe roupa, e vestido,
e como o tinha sentido,
disse medrosa, a velhaca,
vede vós toda esta caca,
não me cheira bem, Marido.

6 E porque mais água pede,
ela lhe disse, isto basta,
porque esta merda é de casta,
que se a mais bolem, mais fede:
ide para a rua, e vede
a razão, com que vos move,
na história fazei-vos novo,
mostrai-vos leve na perda,
porque esta merda foi merda,
de que gostou todo o povo.

7 A Parte andou temerária,
e com sobeja ousadia,
não faria valentia,
mas fez causa necessária:
vós como grande alimária
no pleito lhe dareis perda,
pois um artigo a deserda,
e ela já pode afirmar,
que me inventou deserdar
pela mesma boca merda.

8 Que era de engenho notório
dá grandíssima suspeita,
pois deixa câmara feita,
o que foi sempre escritório:
mudai logo o consistório
como Letrado de Lampa,
que já hoje o juízo escampa;
mas diz a gente travessa,
que vós fazíeis-lhe a peça,
mas ele amou-vos a trampa.

9 Quem pôs tal merda em tal capa,
tenho por ponto assentado,
que morrerá excomungado,
se não recorrer ao Papa:
vós sois Fidalgo de chapa
desde o Brasil até Europa,
pois quando a merda vos topa,
tanto fedeis, que ao nariz
do Moço da Câmara ides
a Moço de guarda-roupa.

10 Se vos não houve respeito
(que é cousa, em que se repara)
nem à cruz da vossa cara,
nem à cruz, que está no peito:
o que presumo, e suspeito,
é, que nunca está seguro
de tanto cabungo impuro
cruzeiro em monturo alçado,
com que o vosso está cagado
por cruz posta em um monturo.

11 A Parte não andou lerda
em vir com panela cheia,
porque a mim me coube meia
panela com meia merda:
não quis a fortuna esquerda,
que mos dê tão má maré
desigualar-nos, mais que
no sentimento, e respeito,
pois vós tomaste-la a peito,
porém eu dei-lhe c'o pé.

12 Não temais, que a Parte lusa,
porque leva a mão ganhada,
que se ela fez panelada,
nós faremos garatusa:
ela deu assunto à Musa,
que já dormia, e roncava,
pois quando agora acordava,
viu, que pelo triste caso
té a fonte do Parnaso
com tanta merda inundava.

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