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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

V

Grandes pássaros passam

"Coisas nossas", de Noel Rosa

Queria ser pandeiro
Pra sentir o dia inteiro
A tua mão na minha pele a batucar
Saudade do violão e da palhoça
Coisa nossa, coisa nossa

O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!

Malandro que não bebe,
Que não come,
Que não abandona o samba
Pois o samba mata a fome,
Morena bem bonita lá da roça,
Coisa nossa, coisa nossa

O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!

Baleiro, jornaleiro
Motorneiro, condutor e passageiro,
Prestamista e o vigarista
E o bonde que parece uma carroça,
Coisa nossa, muito nossa

O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!

Menina que namora
Na esquina e no portão
Rapaz casado com dez filhos, sem tostão,
Se o pai descobre o truque dá uma coça
Coisa nossa, muito nossa

O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!

"A rã" (de João Donato)

Coro de cor
Sombra de som de cor
De mal me quer
De mal me quer de bem
De bem me diz
De me dizendo assim
Serei feliz de flor
De samba em samba em som
De vai e vem
De verde verde ver
Pé de capim
Bico de pena pio
De bem te vi
Amanhecendo sim
Perto de mim
Perto da claridade
Da manhã
A grama a lama tudo
É minha irmã
A rama o sapo o salto
De uma rã

Ex-Presidentes e a Presidenta

A democracia moderna nos permite ver conviverem no tempo Sarney, Collor, Fernando Henrique e Lula. Enquanto Dilma governa.

A cada um daqueles senhores cabe o grosso da responsabilidade por sua biografia.

O País tenta sair do círculo vicioso de autoflagelação.

E ao otimista cabe agir como tal.

Não vou trair minha natureza.

Vou projetar um futuro radioso para a Pátria que me escolheu e quem escolhi. 

Fevereiro já vai

Ontem teve panelaço macarthista.

Hoje é quarta feira, 24 de Fevereiro de 2016.

A 1a semana após o fim do "horário de verão" é diferente...
Saímos na Imigrantes com Sol já raiado.
Chegamos com ele já crescido lá na Baixada Santista.

Fez-se a luz onde reinava a escuridão.

Dilma se recupera aos trancos.
E eu continuo PT.
 

O macarthismo vil e mequetrefe dos batedores de panela(s), por Lula Miranda no Brasil 24 7

O macarthismo, nos velhos e pesados dicionários impressos, de capa dura, que ainda utilizo em meu escritório, é sinônimo de “atitude política radicalmente contrária ao comunismo, que se desenvolveu nos EUA, com a campanha desencadeada pelo senador Joseph Raymond McCarthy, quando presidente do Senate Government Operations Committee” - isso por volta do final da década de 1940 (só para situar na História).
Em dicionários eletrônicos, mais fáceis de acessar, o termo virou sinônimo de “prática de formular acusações e fazer insinuações sem provas, comparável à que caracterizou o movimento macarthista”. Ou ainda a “prática de fazer alegações injustas ou utilizar técnicas investigativas capiciosas, especialmente para restringir o dissenso ou a crítica política".
Seria a perseguição ao PT e aos petistas (ou aos aliados destes) uma nova espécie de macarthismo, um neomacarthismo?
É bom que conheçamos, todos, todas essas definições – até porque a segunda e a terceira dependem da compreensão da primeira. Todas tentam apreender, talvez não consigam a contento, a mais perfeita tradução do terror (e do horror) que é ser perseguido por pessoas, ou por instrumentos e instituições a serviço de um Estado Leviatã, em processos, quase sempre kafkianos, no qual o indivíduo é acusado de um suposto crime, que, a rigor, ao menos nas democracias modernas, não é crime: emitir/exercer, com liberdade, a sua opinião, crença ou ideologia.
Não se trata, simplesmente, do crime de corrupção (ou de colarinho branco), para este existe a legislação e a Justiça, mas do crime de corrupção de valores – o que é pior. Este preocupa-me, sobremaneira.
Ou seja: o indivíduo perde o sagrado e fundamental direito ao respeito à sua individualidade. Direito este que, de tão essencial, está previsto em praticamente todas as Constituições modernas – só não nos regimes ditatoriais, claro.
No Brasil de hoje, na visão dos indivíduos que estão confortavelmente assentados no topo da pirâmide social, ser filiado ao PT ou um militante petista é como se fosse um demérito, um “crime”, um pecado capital.
Pretendem transformar os petistas numa nova espécie de párias da sociedade.
Nada mais equivocado e ruinoso para a democracia.
No Brasil de hoje, vivemos uma espécie de macarthismo dos patifes.
Sim, isso mesmo, um “macarthismo” que é pura “patifaria”.
Já vimos, nos dias de infâmias (e de infames) que correm, petistas sendo acossados e/ou agredidos, em diversos vídeos que circulam pela internet. Em hospitais, restaurantes, salas de aula, nas ruas e até em aviões.
Tivemos, recentemente, o caso do rapaz e da senhora que foram agredidos simplesmente por estarem usando uma camisa da cor vermelha. A cor dos “petralhas”, a cor dos “comunistas” – é o que eles pensam e dizem. Mas eles pensam?!
Lembro aqui o caso do filho do jornalista Ricardo Noblat [este um antipetista de carteirinha – o pai, não o filho], que passeava, tranquilamente, na Paulista com seu bebê no carrinho, numa tarde de domingo, quando foi ostensivamente ofendido e quase agredido por uma turba desses intolerantes.
A mesma histeria do macarthismo.
Ontem, durante o programa político do PT, vimos, novamente, a manifestação dessa ensandecida claque de patifes.
O curioso desse “panelaço” das elites conservadoras do Brasil, vale destacar, é que ele é essencialmente diferente do panelaço original – ou do “cacerolazo”, o do Chile em 1973 ou o da Argentina, de 2001. Na verdade, é o seu oposto. Como já o foram, tantos outros que vieram a seguir.
Os manifestantes do “cacerolazo” (o original) pretendiam fazer barulho para serem ouvidos em suas demandas. Os desassistidos (ou os indivíduos da classe média) tentavam fazer chegar suas críticas e demandas às classes dominantes, às classes governantes.  Estes batiam panela, numa alegoria: queriam passar a mensagem de que suas panelas estavam vazias.
Aqui, as classes dominantes, de panelas cheias, “apenas” desejam voltar a dominar, a governar.
O panelaço brasileiro é, desafortunadamente, mera manifestação de autoritarismo, de intolerância. Ele não pretende comunicar nada. Eles, os que hoje batem panelas, podem até estar enfadados, “revoltados”, mas estão com a barriga cheia.
Aquele que bate, freneticamente, a(s) panela(s) apenas não quer ouvir o outro, eleito “inimigo”.
Aquele que bate panela do alto de sua varanda gourmet não quer diálogo; não deseja ouvir o que o outro tem a dizer. Daí o barulho, frenético.
Para aquele que bate panela(s), só a sua opinião importa.
O batedor de panelas, no Brasil, é o indivíduo conservador, autoritário. Aquele que acha que só a sua opinião, vontade ou ideologia deve prevalecer.
O batedor de panelas é, ao fim e ao cabo, da mesma estirpe ou linhagem do verdugo, do carrasco, do ditador de republiqueta, do corrupto, do egoísta.
O batedor de panelas, no Brasil, não se engane, é a mais perfeita tradução do direitista, do intolerante.
Embora, na maioria dos casos e das vezes, nem eles mesmos se deem conta disso.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Só a mulher tem o poder de se tornar homem fêmea, diz Fernanda Torres

Mulher

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Fernanda Torres*

No presente, a mulher ainda apanha, ganha menos do que o homem e fechou um contrato social impossível de ser cumprido, já que cabe a ela não só cuidar da prole, do lar, se manter jovem e desejada, como também trabalhar para contribuir para o sustento da casa. Sobra tempo nenhum para dormir e, muito menos, sonhar com alguma realização que vá além dos deveres do dia.
Nas camadas mais desassistidas, o fim do casamento indissolúvel produziu milhares de lares sem pai, onde a avó e a mãe servem de esteio para a estrutura familiar. Na falta de creches, de escolas, do estado para ampará-las, a tarefa de criar rapazes que não repitam a violência e o abandono dos pais e meninas que deem um basta na escravidão das mães, é uma missão que beira o inatingível.
A maternidade interfere na vida da mulher de uma forma mais arraigada do que a paternidade na do homem. Temos um relógio biológico certeiro, que coincide com nosso período produtivo, interferindo nas decisões profissionais e pessoais. A fragilidade no emprego, a dependência dos cônjuges, a falta de liberdade de ir e vir passa pela incapacidade do feminino de se desapegar das crias. Um homem, seja ele pobre, rico, preto ou branco, baixo, alto, feio ou bonito, dorme quando está cansado, sai quando deseja e dá prioridade à própria agenda, sem nenhuma pressão que não a da vontade.
Algumas correntes defendem que essa diferença é cultural, mas eu acho que é biológica, carnal, imemorial.
Sou pela licença paternidade. É um passo e tanto para que o casal, unido, divida a responsabilidade dos primeiros meses exaustivos de um bebê. Sou favorável a que toda fábrica tenha uma creche e tenho gratidão pelas babás que me criaram e que criaram meus filhos, cumprindo a função da mãe social, que nos tempos da vovó menina era feito pelas tias, primas, avós e irmãs da casa.
Invejo o companheirismo dos homens, o prazer que eles sentem de estarem juntos e se divertirem com qualquer bobagem. Homem gosta muito de estar com homem. Não me incomoda o machismo, confesso, talvez seja uma nostalgia de infância que carrego. A geração que me criou era formada por machões gloriosos, de Millôr a Miéle, irresistíveis até nos seus preconceitos.
Um editor alemão recusou publicar meu livro, Fim, dizendo que era machista. Explicaram que a obra havia sido escrita por uma mulher e ele disse que não importava, que era machista do mesmo jeito e não iria pegar bem na Alemanha. Está certo o editor, eu sou latina, não consigo entrar numa sauna com todo mundo pelado e me manter isenta.
Os estupros da passagem de ano na mesma Alemanha advogam em favor do editor avesso ao machismo. A violência contra a mulher é menor em lugares onde a igualdade entre os sexos é melhor resolvida. Nos países muçulmanos que visitei, Marrocos, Egito, Malásia, sempre me incomodou o olhar guloso, reprimido e repressor dos homens.
O Brasil está entre um e outro.
Minha babá era um avião de mulher, uma mulata mineira chamada Irene que causava furor onde quer que passasse. Eu ia para a escola ouvindo os homens uivando, ganindo, gemendo, nas obras, nas ruas, enquanto ela seguia orgulhosa. Sempre associei esse fenômeno à magia da Irene. O assédio não a diminuía, pelo contrário, era um poder admirável que ela possuía e que nunca cheguei a experimentar.
Estou certa de que essa é a minha primeira encarnação como mulher.
Apesar do talento para ser mãe, sou menos feminina do que gostaria de ser. Já beirando a idade em que nos tornamos invisíveis ao peão da obra da esquina, rejeito as campanhas anti fiu fiu e considero o flerte um estado de graça a ser preservado. É claro que um chefe que mantém uma subalterna sob pressão constante merece retaliação, mas uma vida de indiferença, onde todo mundo é neutro, não falo igual, digo neutro, sem xoxota, sem peito, sem pau, bigode, ah… é uma desgraça.
Tenho admiração pelas mulheres livres, que não conhecem o medo e são plenas na sua feminilidade. Certa feita, um mulherão me explicou que terminou um casamento sem brigas e sem sofrimento porque o marido ficou homem demais. Na casa dela, pontuou a morena, só havia lugar para um homem, e esse homem era ela.
Nunca fui mulher o suficiente para chegar a ser homem.
A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo. Fora as questões práticas e sociais, muitas vezes, a dependência, a aceitação e a sujeição da mulher partem dela mesma. Reclamar do homem é inútil. Só a mulher tem o poder de se livrar das próprias amarras, para se tornar mais mulher do que jamais pensou ser.
Um homem fêmea.

* Fernanda Torres é atriz e escritora



Alguns dias depois a escritora mandou:

Mea Culpa

Por #AgoraÉQueSãoElas

Por Fernanda Torres*

Venho aqui pedir desculpas pelo artigo Mulher que publiquei no Blog Agora É Que São Elas, da Folha. Jamais pensei que ele seria uma afronta tão profunda a nós mulheres. Não o teria escrito se achasse que era esse o caso.
As críticas procedem, quando dizem que eu escrevi do ponto de vista de uma mulher branca de classe média. É o que sou.
Minha mãe sempre trabalhou, teve um casamento que nunca cerceou o seu direito profissional, eu cresci num ambiente de extrema liberdade, conquistada, diga-se, com a ajuda de movimentos feministas anteriores a mim. Era uma época de um machismo muito arraigado, do qual guardo heranças, mas que, lamentavelmente, ainda à época não estava identificado de forma direta com o estupro e a violência.
Entendi com as respostas ao meu artigo que, hoje, os movimentos feministas lutam para que essa associação seja clara. Inclusive no que se refere ao direito de ir e vir sem assédio.
Esperava-se de uma voz feminina que tem um espaço para se posicionar, uma opinião menos alienada e classista diante da luta pelo fim de tanta desigualdade e sofrimento que as mulheres enfrentaram e enfrentam pelos séculos.
Refleti durante toda semana e o que me cabe são profundas desculpas. Procurarei estar atenta e comprometida com essas reinvindicações.
Entendi que existe uma discussão maior, que vai da cidadania ao direito ao próprio corpo, e, acima de tudo, uma luta pela erradicação da violência contra a mulher num país já tão violento, discussão essa que não comporta meios termos.
Sou contra o estupro, a violência, o baixo salário, o racismo, e reafirmo a importância dos movimentos que lutam pela melhoria das condições de vida da mulher e das minorias no Brasil.
Sou mulher e não gostaria de ser vista como inimiga desses movimentos, e nem de vê-los como tal, porque isso não corresponde à realidade do meu sentir.
Toda vontade de mudança parte do indivíduo, é o que estou fazendo aqui. Sem a coletividade é impossível avançar.
Prometo estar atenta. Perdão por ter abordado o assunto a partir da minha experiência pessoal que, de certo, é de exceção.
Mea culpa.